RECORDAÇÃO DE EUDORO DE SOUSA
Lembro-me bem do meu primeiro
encontro com o Professor Eudoro de Sousa. Eu me preparava para fazer o
vestibular que me daria acesso ao Instituto de Letras da UnB, mas meu objetivo
maior era justamente estudar com ele, no Centro de Estudos Clássicos. Seguia o
conselho de um homem ilustre, o Professor Agostinho da Silva, com quem eu
fizera amizade na Bahia: “Eudoro é o mestre de que você precisa.”
O retrato que tenho deste
mestre mostra-o tal como o conheci. Contemplando a velha
fotografia, sinto ainda o brilho dos olhos agudos que pareciam
desafiar-me com benévola ironia, quando a ele me apresentei. Eudoro perguntou-me
porque eu me interessava pelos clássicos; falei que Virgílio me tinha fascinado
e que eu precisava de ler Homero no
original. Este “precisar” arrancou-lhe
um sorriso. Revelei-lhe ainda que sentia uma curiosidade muito grande pelo
mundo greco-romano, mas principalmente pelo pensamento dos filósofos, pela arte
e poesia dos gregos. Confessei ainda que tinha apenas uma idéia vaga do que
fosse a filologia clássica. Diante disso, ele imediatamente fui buscar um livro
que pôs nas minhas mãos: “Volta cá depois de teres lido”. Isso foi pela
manhã; voltei no fim da tarde para
devolver o livro e saí com outro. E com uma exigência nova: “Escreve um pouco
sobre o que andas a ler!” A isso me apliquei: a ler e fazer comentários sobre os
livros e artigos que ele me indicava. Eudoro passava os olhos rapidamente pelos
meus escritos e me apresentava novos textos. Na véspera do vestibular, ele me
ponderou: “Tu passastes este tempo estudando o que te dei a ler. Aqui não te
preparaste para esses estúpidos exames, mas vê se passas! Só assim te posso
receber cá no Centro, pois o tenho ligado ao Instituto. Andarás a fazer Letras,
vê se as desenhas bem...”
Tão logo fui aprovado e
me matriculei, ele empenhou-se em conseguir-me uma bolsa. A partir de então, praticamente me
internei no Centro de Estudos Clássicos (CEC). Dedicava a maior parte do meu
tempo à aprendizagem do grego, a assistir atentamente as aulas do mestre Eudoro
sobre as culturas clássicas, a seguir o
roteiro de leituras que ele continuou a traçar-me, a frequentar os seminários por ele dirigidos e
a acompanhar as lições de seus assistentes, que muito me ajudaram (destaco
meu conterrâneo e amigo Xavier Carneiro,
de quem tive sempre um caloroso apoio, um
grande estímulo).
No CEC estavam minhas
prioridades. Tenho o diploma de Bacharel em Letras Brasileiras, mas se então me
perguntassem o que eu fazia na UNB, eu responderia simplesmente: “estudo no CEC
com o professor Eudoro de Sousa”.
Isto não significa que lá
fiquei isolado, fechado, sem contacto com o resto da Universidade. Se o fizesse, estaria
contrariando meu orientador e o espírito
do Centro que ele concebeu. Tive na UnB um rico diálogo com muitos
professores e colegas não apenas do Instituto de Letras como também de outras
unidades e áreas. A UnB, quando lá cheguei, tinha um desenho que propiciava
esses diálogos. E o CEC vinha a ser efetivamente um núcleo interdisciplinar,
com estudiosos que transitavam por diferentes espaços acadêmicos. Eudoro não
conseguiu torná-lo tão independente quanto queria, mas este centro não se
limitou a servir ao Instituto de Letras. Seu Coordenador deu aulas sobre a matemática
dos helenos e sobre história da ciência antiga a estudantes da área de Exatas; o professor João Evangelista, ligado
ao CEC, ensinava no Instituto Central de Artes, onde também atuou Fernando
Bastos; na área de Humanas, além do próprio Eudoro, atuou o professor Emanuel
de Oliveira Araújo. Dei aulas à maior turma de língua grega que se formou na
UNB, já nos últimos tempos do CEC: uma turma de estudantes de ciências da
saúde, interessados em entender melhor o vocabulário médico.
O CEC era frequentado por
professores e estudantes de diferentes cursos. E queria seu fundador que ele
ficasse a serviço da Universidade como um todo.
Isto não significa que ele considerasse menor o papel exercido pelo
Centro no Instituto de Letras, de onde
lhe vinha a principal demanda (por cursos de Língua e Literatura Grega, Latim e
Literatura Latina, principalmente). Ele insistia, porém, em combater uma visão
“beletrista” da Antiguidade Clássica. E pretendia montar uma equipe que atuasse
em diferentes campos. A isso o inclinavam
seu espírito aberto e seu interesse por diferentes ramos do conhecimento — interesse que convivia muito bem com sua
dedicação aos estudos clássicos, entendidos com a amplitude caracerística da
concepção de Classische
Altertumswissenschaft haurida na vertente germânica de sua formação.
Eudoro manteve por toda a
vida um gosto bem cultivado pela matemática e pela física, principalmente pela astrofísica. Era astrônomo amador e
chegou a construir, junto com outros aficionados, um pequeno observatório astronômico
no campus da UnB. Era seu hobby. Acima de tudo, porém, ele se via como um
helenista: um estudioso do mundo grego, com forte vocação filosófica, um
profundo sentimento da história. Na Alemanha, ensinou literatura portuguesa
enquanto se dedicava à filologia clássica. Foi também docente de filologia
românica, tanto na Europa como no Brasil. Mas a cultura helênica ocupava o
centro de sua atenção intelectual.
O primeiro curso dele a
que assisti teve o título de “Arqueologia do Egeu e do Mediterrâneo Oriental”. Tratou da formação da
oikouméne mediterrânea, do seu
background pré e proto-histórico. Eudoro entendia que os estudos das culturas
clássicas deviam manter forte conexão com as pesquisas sobre as outras
civilizações mediterrâneas, levar em conta as complexas redes de relações entre
as sociedades e modos de vida que ali floresceram. Não por acaso, ele acabou recrutando para os quadros do CEC um
egiptólogo, Emanuel Araújo, que fez mestrado e doutorado sob sua orientação.
(Eudoro também despertou em mim um duradouro interesse pelas civilizações mesopotâmicas, pelas
criações sumero-acadianas. Graças ao que aprendera com ele, pude, mais tarde,
desfrutar melhor das lições do grande assiriólogo Jean Bottéro, em um breve
curso na USP e nas conversas que mantive com este sábio em Paris).
Ouvindo as preleções de
Eudoro de Sousa em muitas outras oportunidades, pude verificar
a que ponto esse filólogo, perito na exegese de textos escritos,
desenvolveu uma especial sensibilidade hermenêutica através do estudo de
processos de interpretação arqueológica, de “leitura” arqueológica. E já
naquele primeiro curso me dei conta da amplitude do foco de suas investigações,
da profundeza com que ele encarava o seu campo de pesquisas predileto: um campo
correspondente ao vasto domínio histórico ao qual Tonybee aplicou a designação
de “helenismo” (envolvendo o mundo grego, o helenístico e o greco-romano).
Outro
grande tema de sua reflexão veio a ser a relação entre mito e filosofia.
Ele era um especialista
em Aristóteles, mas também um grande estudioso da obra de Platão e dos pensadores que inauguraram a filosofia grega.
Acho mesmo que o valor exponencial de suas traduções de fragmentos dos
pré-socráticos ainda não foi devidamente reconhecido.
Eram muito concorridos os
cursos de Eudoro de Sousa, tanto os regulares quanto os de extensão, que atraíam sempre um grande
público. Ele sabia exprimir-se de maneira a um tempo luminosa e apaixonada, que
prendia seu auditório, muito embora ele falasse sobre temas cuja alta complexidade
jamais minimizava ou tentava disfarçar. Detestava a “clareza” simplificadora...
Mas sabia como ninguém estimular a inteligência de seus ouvintes, que se
sentiam gratificados por um ganho não só de conhecimento como também de
lucidez.
Dele recebi poucas lições
de língua grega, pois em geral ele delegava este ensino a seus assistentes. Mas essas poucas lições
foram inesquecíveis.
Certa feita, ele passou
todo o tempo da aula a comentar um
verso da Ilíada. Não se deteve na
explicação gramatical do fraseado, aliás muito simples; explorou profundamente
os múltiplos sentidos de duas palavras e, partindo de uma sentença, acabou por
apresentar uma bela reflexão sobre o todo do poema. Eu o segui quando ele saiu da sala; sacrifiquei a aula que teria em
seguida, em outra disciplina, para ouvir mais sobre esse verso, sobre os
escólios que ocasionou e sobre composição dos hinos homéricos. Horas depois,
ele arrematou: “Agora, segue lendo! Tens aí uma boa gramática, um valente
dicionário. Se tiveres dúvidas, pergunta”. E eu fiz como ele dizia. Tinha a
impressão de que se havia aberto uma clareira no corpo do texto e dali o poema
se franqueava inteiro para mim.
Minhas leituras de
autores gregos foram freqüentemente enriquecidas pelas consultas que eu lhe
fazia. Às vezes, elas provocavam longas conversas entusiásticas, que raramente se detinham no ponto cujo
esclarecimento eu lhe pedia. Essas conversas podiam acontecer em diferentes
momentos, onde e quando eu o encontrava disponível: não raro, à saída do CEC, ou
no barzinho ao pé da Oca, enquanto ele saboreava uma cerveja. Muitas
aconteceram no próprio centro; ao me ver entretido no estudo de textos
clássicos ele se aproximava e perguntava-me: “Como anda isso?” Era o mote que
eu tratava de aproveitar.
Mas podiam acontecer
pequenas complicações.
Embora isso muito me
instruisse — e divertisse —, acabei tendo de evitar a leitura das comédias de
Aristófanes nesse local, quando Eudoro estava por perto e não muito ocupado. É
que eu sempre disparava a rir — e, invariavelmente,
ele acudia para saber de que eu estava rindo; quando eu lhe mostrava o trecho,
ele o lia com entusiasmo, depois empenhava-se em traduzi-lo “com força” para o
português, recitando os impagáveis versos entre gargalhadas. Ato contínuo,
punha-se a comentar a passagem, de maneira nem um pouco discreta: em termos
dignos de Aristófanes... para escândalo das bibliotecárias e de outras pessoas
pudicas por acaso presentes. (Um compenetrado professor de língua portuguesa
pareceu-me particularmente ofendido ao testemunhar, por acaso, uma desses
momentos aristofânicos de minha aprendizagem com Eudoro: depois desse dia,
nunca mais apareceu no CEC). Em outra
ocasião, quase sufoco tentando conter o riso, pois lá se achavam muitas damas,
entre as quais D. Maria Luisa, a esposa do mestre. E eu lia a Lisístrata... Por pouco não provoco uma pequena tempestade
conjugal.
O modo como Eudoro me
guiou em leituras decisivas, participando do encanto que me fazia desfrutar,
foi talvez o que mais me aproximou dele. Segundo creio, é pelo encanto que
melhor se aprende... Posso dizer que devo a esse mestre entusiástico minha
formação intelectual. Nos seminários por ele organizados no CEC
não eram discutidos apenas os clássicos gregos e romanos, mas também
outros grandes autores que refletiram sobre a antiguidade ou fizeram
iluminar-se algum aspecto da paideia
clássica, do thesaurus da civilização
greco-romana: poetas como Dante Alighieri, Hölderlin e Fernando Pessoa, por
exemplo, e filósofos da cepa de Hegel, Schelling, Nietzsche, Heidegger... Esses
seminários lhe serviam para aprofundar as reflexões que desenvolvia na
construção de seu próprio pensamento filosófico. Pois ele era também um
filósofo. Sua obra bem o mostra, muito embora ele não reivindicasse esse
título.
Na
Alemanha, Eudoro privou da amizade de
Karl Jaspers e assistiu a seminários de Heidegger. (Este, entre os
modernos, foi o pensador que mais o marcou). No Brasil, no período em que viveu
na capital paulista, Eudoro integrou o chamado “Grupo de São Paulo”, que se
reunia em torno da revista Diálogo e
do Instituto Brasileiro de Filosofia, sob a liderança de Vicente Ferreira da
Silva, de quem ele se tornou muito amigo; Ferreira da Silva foi, sem dúvida, o
autor brasileiro que mais o influenciou.
No Centro de Estudos
Clássicos da UNB cultivou-se também a reflexão filosófica. Eudoro teve entre
seus orientandos José Xavier Carneiro, que fez uma dissertação sobre Apolônio de Rodes, e
Fernando Bastos, que dissertou sobre a
teogonia de Ferécides de Siro (no doutorado, Bastos tratou da obra de seu
mestre e mostrou a importância da contribuição deste para a filosofia). Xavier
Carneiro era também estudioso do pensamento de Kierkgaard e teve um papel
importante no Seminário sobre o Das Ding de Heiddegger, que Eudoro
presidiu no CEC. Mais tarde haveria de voltar-se para a filosofia oriental.
Bastos dedicou-se principalmente à estética, que posteriormente lecionou por
longo tempo na UNB.
Um amigo que muito o
apoiou e com quem Eudoro manteve, até o fim, um diálogo criativo foi Agostinho
da Silva, como ele nascido em Portugal e naturalizado brasileiro. Tinham, os
dois, estilos muito diferentes de pensar e agir, temperamentos quase opostos;
mas sempre se entenderam muito bem. Agostinho teve um papel importante no CEC, para onde levou seus
amigos baianos (Xavier, Jair Gramacho, Emanuel e eu mesmo); chegou a dirigi-lo
por um curto período, em que Eudoro esteve afastado da função de Coordenador por problemas de
saúde.
Agostinho tornou-se
conhecido por suas obras sobre a literatura e a cultura portuguesa (seu livro
sobre Fernando Pessoa marcou época) mas também atuou em muitos outros campos:
realizou pesquisas de entomologia, ensinou Filosofia do Teatro na UFBA, fundou
um Centro de Estudos Afro-Orientais etc. Em sua vasta obra se encontram estudos
sobre assuntos os mais variados. Esse versátil polígrafo era um notável
latinista; atestam-no suas magníficas traduções de Virgílio, Plauto, Terêncio.
Sua amizade com Eudoro remontava a Portugal,
mas aprofundou-se aqui. Ambos
participaram da fundação da Universidade Federal de Santa Catarina, onde
travaram importante colaboração.
Agostinho também fez
parte do “Grupo de São Paulo” e, tal como Eudoro, manteve forte ligação de
amizade com Vicente e Dora Ferreira da Silva (a esposa do filósofo, poeta
consagrada, falecida há coisa de poucos anos; seu belo Hídrias, onde há muita inspiração helênica, valeu-lhe em 2005 o
Prêmi Jabuti). Na UnB, Agostinho fundou
o Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, deu aulas no Instituto de Letras e
sempre colaborou com Eudoro de Sousa no CEC. Viajava muito. Nas viagens mais
demoradas, escrevia a Eudoro cartas em um latim rebuscado. Eudoro respondia em
grego. Divertiam-se com isso.
Nos
anos em que lá estudei, o Centro de Estudos Clássicos era um importante núcleo
irradiador cuja influência se fazia sentir em toda a Universidade. Os
estudantes de Biblioteconomia, de que muitos foram alunos de Eudoro, lá
encontravam ensinamentos e fontes que lhes facultavam compreender melhor a
história do livro, por exemplo; jovens interessados em filosofia, antropologia,
música, artes plásticas, letras etc. (como Pedro Agostinho, Rafael Bastos,
Rinaldo Rossi, Olympio Serra, Hermano Penna
e muitos outros) eram assíduos na biblioteca do CEC, onde costumavam
assistir seminários e palestras. Quando
Carlos Petrovich foi à UnB para uma tentativa de lá implantar um Curso de
Teatro, teve pronto apoio de Eudoro de Sousa, que então fez uma série de
conferências sobre tragédia grega no Auditório Dois Candangos e leu em primeira
mão, para um vasto público, a sua tradução de As Bacantes, de Eurípides. Um amplo
leque de atuação era o que o fundador sonhava quando implantou o Centro de
Estudos Clássicos na UnB. Por algum tempo, conseguiu realizar este sonho...
O CEC instalou-se em um
barracão, no seu começo heróico; depois
passou a uma ampla sala no subsolo do edifício em que então funcionava a
Reitoria. Tinha um belo acervo de livros e micro-filmes; uma pequena mapoteca;
uma ampla mesa de reuniões no espaço principal, a cuja volta os seminários
internos aconteciam; um gabinete em que o Coordenador ficava rodeado por fartas
estantes, recheadas com livros que lhe pertenciam e tinham fichário especial,
mas também por obras de referência e outras a cujo estudo ele se dedicava mais
constantemente. Em bureaus destacados se instalavam os demais professores, as
bibliotecárias e o pessoal da secretaria.
O espaço todo era bem movimentado, com um afluxo constante de gente
estudiosa, à procura de livros, revistas, informações. Uma saleta abrigava os
monitores. Eudoro de Sousa a visitava
quase todos os dias; lá me passou muitos exercícios de grego. Ali costumava
deixar, de quando em quando, livros e artigos sobre minha mesa, com a indicação
do dia em que deveríamos conversar a respeito. (Acabou por forçar-me a ler
alemão, pois nem sempre Xavier podia acudir-me quando nosso mestre me
deixava frente a frente com textos na
língua por ele estimada indispensável a quem “quer meter-se com Filologia
Clássica”). Nessa bendita saleta tive esplêndidas aulas informais e fiz
leituras inesquecíveis.
As apostilas de grego
ficavam guardadas em um pequeno armário. Antes que fosse adquirida uma máquina
datilográfica com caracteres em grego, o poeta Jair Gramacho praticamente
desenhou os textos, usando o recurso da xilogravura. O leitor de microfilmes
era uma grande máquina preta, um pouco sinistra, que apelidei de Libitina. Ficavam em um armário especial as estampas
com reproduções de pinturas de vasos gregos e fotos de monumentos, estátuas,
relevos, sigilos, moedas. Além dos livros especializados, essas fotos e
estampas eram muito úteis para familiarizar-nos com a iconografia helênica,
romana e greco-romana. Estudantes de arquitetura e artes plásticas sempre
apareciam à procura desse material.
Os bolsistas do CEC tanto
estudavam como trabalhavam lá. E o trabalho era parte da aprendizagem... Muito
aprendi com a simples arrumação da biblioteca.
O CEC tinha ainda um
anexo: uma copa, com um imenso bule, sempre cheio de café, entronizado em um discreto fogareiro. Com
esse bule o Professor Eudoro teve, certa vez, um pequeno desentendimento, em um
dia em que foi pessoalmente servir-se e queimou a mão: indignado, disparou
contra o miserável bule uma fantástica enxurrada de xingamentos. Mas não foi
rancoroso: perdoou logo o infeliz e aderiu gostosamente a minhas risadas.
Sim, ele tinha um temperamento
forte. De vez em quando, estourava em magníficas explosões de fúria. Em geral,
elas eram provocadas por manifestações de estupidez ou de má fé. Às vezes,
porém, eram inexplicáveis, beirando o absurdo, como no caso que narrei. Mas
nunca envolviam perfídia, nem malevolência. Vinham de um homem franco que não
escondia suas emoções e tampouco alimentava rancores.
Eu preferia vê-lo
furioso, como acontecia nos bons tempos, imprecando contra o besteirol,
disposto a atacar gigantes e moinhos de vento, fazendo tempestades em copos de
uísque, a encontrá-lo abatido, melancólico, acabrunhado — como por vezes ele me
pareceu, depois da extinção do CEC. É verdade que nesse último período ele
ainda deu ótimas aulas de grego e de História Antiga, escreveu belos ensaios,
estimulou alunos a produzir bons trabalhos... Mas seu sonho universitário
estava destruído.
Dói-me contemplar-lhe,
nas últimas fotografias, o rosto sofrido, emoldurado por uma barba que lhe deu
feição de máscara trágica. Nessas fotos, seus olhos faiscantes me aparecem como
lágrimas luminosas, mal contidas sob o peso sombrio das pálpebras. Sei bem do
conforto que lhe dava a força pujante de seu pensamento; a fantástica lucidez
que ele às vezes maldizia por certo também lhe deu amparo. Mas foi muito injusta
a retribuição que ele teve no final da vida por um trabalho generoso em prol do
desenvolvimento da cultura em nosso país.
Darcy Ribeiro e Anísio
Teixeira tudo fizeram para reunir na UnB o que encontraram de melhor no meio
universitário nacional. Sonhavam constituir aí uma nova vanguarda da
inteligência brasileira. Darcy levou
Agostinho da Silva para Brasília a fim de que lá ele fosse “a presença de
Portugal”. Na UFSC recrutou Eudoro de Sousa, a quem deu a missão de implantar
no cerrado candango os estudos clássicos.
Eudoro empenhou-se
profundamente no trabalho que lhe foi confiado. Criou logo o CEC no campus
poeirento da universidade em construção. O primeiro passo foi a formação de uma
biblioteca especializada. O segundo foi povoá-la com estudiosos de boa cepa. O CEC começou logo a
atuar, oferecendo cursos de graduação e pós-graduação, com um pequeno grupo de
mestres que ali se reuniram sob o comando do coordenador.
Uma boa biblioteca, com
espaços adequados à pesquisa erudita, à reflexão, ao exame de documentos, onde os estudantes e
pesquisadores possam reunir-se, consultar-se uns aos outros, desenvolver
projetos e trabalhar à vontade, isoladamente ou em equipe, é tudo de que se
precisa para o funcionamento de um núcleo dessa natureza, tanto mais produtivo
quanto maiores forem sua abertura interdisciplinar e seu dinamismo. Quando
cheguei ao Centre Louis Gernet (CLG) para um estágio, muito tempo depois, senti-me em casa. O CLG ainda funcionava,
então, na simpática Rue Monsieur le Prince, em acomodações modestas. A rigor,
era uma biblioteca especializada com uma grande mesa na sala principal, onde os
estudantes ficavam a ler; tinha uma secretaria,
um gabinete do diretor, espaços reservados para o uso dos pesquisadores
do quadro da casa, bibliotecárias a postos, recursos de apoio ao estudo e à
consulta dos livros, das revistas, dos registros iconográficos etc. Guardadas
as proporções, nosso velho CEC da UnB foi
concebido da mesma maneira. Pena que esse modelo tão simples e eficaz
não tenha tido vida mais longa na UnB.
Como se sabe, esta
Universidade sofreu muito com o golpe de 1964. Foi invadida pouco depois da implantação do
governo militar, numa verdadeira operação de guerra. Testemunhei essa invasão
estapafúrdia. Deu-se ela em um dia em que se fazia a mudança do CEC, do
barracão onde primeiro se instalou para as salas do subsolo da Reitoria.
Cheguei a ser detido, enquanto transportava as apostilas de grego. Um zeloso
soldado desconfiou de que se tratava de material subversivo: “Veja, sargento, isso
parece russo!” O sargento, menos estúpido, logo se deu conta do absurdo da
hipótese de estar alguém distribuindo panfletos em russo por ali e mandou-me
andar — um tanto incomodado, também,
pelo meu sorriso divertido em meio a toda aquela confusão. Foi meu primeiro
contacto com o febeapá da “gloriosa”...
Outras invasões se
sucederam, sempre com detenção de estudantes e professores, submetidos à
violência e ao arbítrio que passaram a ser normais no triste regime. Costumo
dizer que até hoje, ao passar pela quadra de basket-ball que há no campus da
UnB, tenho o impulso de cruzar as mãos atrás da nuca: era assim que conduziam
para lá os suspeitos, nessas invasões; e
mais de uma vez me aconteceu de ser suspeito.
Conhece-se bem a história
da grande crise que afetou essa universidade em 1965, quando o reitor designado
pelo governo militar resolveu fazer nela um indecente expurgo, começando pela
demissão sumária e injustificada de um mestre. Em reação a essa medida,
demitiram-se de uma só vez duzentos e vinte e três professores. Esperava-se
criar um grande impasse... Mas o governo os substituiu depressa, recrutando a
torto e direito todo tipo de docente
disponível, sem maiores preocupações com a qualidade. Parte dos demissionários
acabou por sair do país; essa evasão de cérebros foi um dos graves danos
causados ao Brasil pela ditadura. Os bons professores que resolveram ficar na
UnB foram, em diferentes momentos, muito “patrulhados” por isso. Mas creio que
sua decisão de permanecer e resistir
impediu o total desmoronamento da instituição. Se não o fizessem, seria
mais rápida, fácil e completa a vitória do obscurantismo, com efeitos quiçá
irreversíveis na alma mater
brasiliense.
Eudoro ficou. Caso ele
não tivesse ficado, mais cedo se teria acabado o CEC, sem deixar as sementes
que deixou; muitos estudantes teriam perdido a oportunidade de formar-se com seus ensinamentos e sua sábia
orientação; pesquisas e teses valiosas não se teriam concluído; um tesouro de inteligência e cultura nos
escaparia e a UNB ficaria sem uma de suas grandes estrelas, que ainda muito
brilho lhe havia de conferir.
Creio que pesou na
decisão de Eudoro um elemento importante: ele já se considerava brasileiro e
não queria deixar sua nova pátria. Tampouco queria desistir da universidade tão
sonhada, de que foi um dos fundadores.
Pagou caro por este
sonho.
O CEC resistiu ainda por alguns anos; mas logo
a mão de ferro do obscurantismo o atacaria brutalmente. Apontado por um energúmeno — um espião
disfarçado de professor, um pseudo-intelectual que o invejava profundamente —,
Eudoro de Sousa foi indiciado como subversivo e respondeu a um inquérito
policial militar. Ele não tinha atividade política, mas era clara sua simpatia
pelos estudantes sempre rebelados; gostava de assistir às assembléias da FEUB
(Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília) e era amigo de seu
presidente, Honestino Guimarães, líder estudantil mais tarde assassinado pela
repressão. O canalha que dedurou Eudoro foi expulso da universidade pelos
estudantes, que ocuparam o apartamento da Colina onde residia o pretenso docente e fizeram seu
despejo, em um dos episódios mais singulares da conturbada história da UnB. No
local foram encontrados documentos do verdadeiro serviço do “professor” de
araque. Numa sua agenda estava anotado: “Denunciar o Coordenador Eudoro”. A
imprensa local divulgou o acontecimento (esse registro inclusive).
Por falta de provas,
Eudoro não foi preso. Foi apenas fichado... Mas os seus colaboradores do CEC logo viriam a ser
atingidos por medidas arbitrárias do interventor que ocupava a reitoria da UnB
nesses anos de chumbo. Em 1968, o
Professor Xavier Carneiro foi desligado sem que lhe dissessem o motivo.
O CEC foi extinto. Quando
de sua extinção, o latinista Suetônio Valença e eu, que então fazíamos o
mestrado, tivemos nossas bolsas cortadas e nossas matriculas anuladas sem
qualquer explicação. O belo acervo do CEC foi transferido para uma sala obscura
da Biblioteca Central (custa-me crer que está todo ali).
Eudoro continuou a dar
aulas, mas vivia quase isolado na sua Universidade. Tinha ainda por perto
Emanuel Araújo, no Departamento de
História, e Fernando Bastos no Instituto Central de Artes (Emanuel passou uma
temporada na cadeia, por militar contra a ditadura); também se tornou um seu
amigo próximo Ronaldes de Melo e Sousa, brilhante teórico da literatura, que
com ele estudou grego.
Quando voltei à Unb para
fazer pós-graduação em Antropologia Social, retomei o diálogo com o velho
mestre. Tivemos um belo debate a propósito de seu livro “Horizonte e Complementariedade” (que também
resenhei para o Anuário Antropológico). Em resposta a indagações que lhe fiz a
respeito desta obra, de que destaquei a forte originalidade, Eudoro apresentou
uma leitura dela que contradizia uma das
teses centrais aí defendidas; já
a tinha superado... Mostrei-lhe essa contradição e ele reagiu com surpresa.
Publicou o nosso diálogo no seu “Sempre o Mesmo acerca do Mesmo”, escrito, como
ele afirmou, para responder a meu questionamento. Foi uma resposta muito rica;
orgulho-me de a ter provocado. Eudoro sentiu-se um tanto espicaçado por ver-se
na condição de “mau leitor de si mesmo”, segundo suas palavras. Mas o que eu
evidenciei foi o avanço de um pensamento muito rico, que ultrapassava uma alta
posição alcançada em seu movimento ascendente.
Concluído o meu mestrado
em Antropologia Social, voltei para Salvador; depois disso, poucas vezes estive
com Eudoro, em rápidas passagens por Brasília. Não acompanhei a última etapa de
sua vida e de sua produção. Lendo-o de longe, a uma distância já impossível de
percorrer, sinto ainda o vigor criativo que transparecia em sua voz nos velhos
tempos. E até me parece que nosso diálogo nunca se interrompeu.
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